segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O que aprendi com alguns usuários na cracolândia



Entre os dias 06 e 13 de dezembro aconteceu o 3º Festival de Direitos Humanos em São Paulo, como eu já havia comentado no post anterior. Algumas das atrações aconteceram na Luz, mais precisamente na região conhecida como "cracolândia". Tive a oportunidade de estar presente em duas delas e presenciar algumas coisas que certamente me enriqueceram muito como ser humano.

Já falei aqui sobre a grande diferença que notei logo na saída da estação Júlio Prestes. A antiga "favelinha" não existe mais e o fluxo agora está concentrado apenas na Alameda Dino Bueno, praticamente entre a Rua Helvétia e a Alameda Glete, ou seja, um lado de um quarteirão. Isso não foi ninguém que me contou, eu mesma vi, tanto as 18h, quando cheguei para a sessão de cinema, quanto as 22:30h, ao ir embora. Só aí já dá para perceber que algo mudou.

Mas hoje gostaria de compartilhar o que aprendi com alguns moradores da região (como não irei lembrar os nomes, vou citar pela ordem em que os ouvi): 

  • O 1º participou da roda de debate na segunda-feira, dia 07/12. Ao ser questionado sobre redução de danos disse que só queria sair daquele "inferno". Que entrou para o programa "De Braços Abertos", estava indo bem, já tinham conseguido um trabalho para ele fora do programa, mas seus colegas de trabalho descobriram sua origem e passaram a descriminá-lo. Depois de muita humilhação não aguentou a pressão, acabou recaindo, largando o programa e voltando para a rua.


O programa tem ajudado muita gente. Ele dá dignidade, moradia, alimentação e trabalho. Trata os participantes não como drogados, mas como seres humanos que são e como tal, tem direito à tudo isso. Infelizmente o preconceito é imenso e isso acaba dificultando a reinserção dessas pessoas na sociedade.

  • A 2ª foi uma mulher. Estava limpa e bem vestida, nada bagunçada. É bem sociável, conversava normalmente, não parecia usuária nem moradora de rua, mas é. Mantém contato com a mãe e de vez em quando vai vê-la. 


Aquela história de que os usuários viram zumbis e só vivem em função da droga não é verdade. Existem vários tipos de usuários e níveis de dependência. Alguns conseguem manter certo controle sobre a droga e não se deixam dominar totalmente pelo vício. 

  • O 3º me chamou atenção pois falou que fuma crack, mas não bebe pois cresceu vendo o pai alcoólatra bater na mãe.


"O governo quer acabar com o crack mas não tem moral pra vetar comercial de cerveja"*. A droga que causa mais gastos para o governo com saúde pública, que tem mais usuários, que mais causa violência doméstica, mortes por acidentes de trânsito, etc... não é o crack, é o álcool. Fica a reflexão...

  • O 4º é alcoólatra. Passou por internação de dois meses do Programa Recomeço, do governo estadual. Apesar da maioria reclamar de violência e maus tratos nesse tipo de internação, esse homem disse que para ele funcionou. Mas assim que saiu reencontrou "amigos" que o chamaram para ir pro boteco, e aí não parou mais de beber. Ele fez questão de contar a todos sua história, que chegou a cursar faculdade de teologia. Ao me ver sentada puxou assunto, mas não sem antes se mostrar constrangido pelo fato de estar alcoolizado. Ele disse: "eu bebo cachaça, desculpa, eu sei que o cheiro é horrível (tampando a boca)". Me mostrou seu papel de alta da clínica, onde estava escrito que ele deveria continuar o tratamento no CAPSAD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas). Me disse que gosta de cantar e me mostrou a música que estavam ensaiando para o natal. Ah, também fez questão de falar que tem facebook.


Sabemos que dois meses de internação não vai tirar ninguém definitivamente das drogas. Mas pode sim ser uma ajuda para quem deseja parar. Ou ao menos uma pausa para a pessoa pensar um pouco e se recuperar fisicamente. Mas a continuidade deveria incluir moradia, alimentação e trabalho. Por que não encaminhar quem sai do Recomeço direto para o De Braços Abertos? Questões políticas (um é do governo estadual, o outro da prefeitura). Tratamento apenas no CAPS é pouco, pois sem ter para onde ir a pessoa acaba sendo obrigada a voltar para a rua e aí acaba voltando ao uso, até para aguentar a difícil realidade de morar na rua. 
Outra coisa que me chamou atenção (não apenas no caso dele mas também de outros que chegavam no meio da roda, falavam e iam embora) é a vontade de ser ouvido. Ao contar suas histórias é como se dissessem: "Ei, eu existo! Nem sempre fui um 'noiado'. Não vou te roubar. Só quero ser tratado como gente. Quero um pouco de atenção." Enquanto nós estamos conectados quase que 24h por dia, postando cada passo que damos e esperando quase que ansiosamente para ver quantas curtidas iremos receber... eles estão ali, esquecidos pela sociedade, invisíveis. Mas continuam sendo gente e tendo as mesmas necessidades que nós. Nem preciso dizer como é emblemático o fato dele fazer questão de falar que tem facebook.

  • O 5º é um senhor chileno. Estava na roda depois da apresentação do filme "O Invasor" na quarta-feira, 09/12. Não quis falar muito. Quando perguntando há quanto tempo vive na cracolândia ele respondeu 20 anos!


Outro mito derrubado: de que quem usa crack com frequência morre em poucos anos. O cara está alí desde o início da formação da cracolândia, quando o crack começou a ser vendido no Brasil. Essas pessoas não podem ser vistas como algo que enfeia a cidade, que deve ser varrido de lá, mas como parte fixa da cidade. Devemos pensar que para eles aquelas ruas são a sua casa, espaço que ocupam a muito tempo. Alguns não querem sair, e acho que devemos respeitar isso. Mas também dar opções. Saindo ou ficando, mais dignidade, para todos.



Depois da roda ele estava conversando com um dos caras do Casa Rodante e me chamou. Fui até eles, ele disse: "é bom ver uma mulher bonita de verdade aqui, não essas (se referindo às usuárias)". Do jeito que ele falou não soou ofensivo. Foi um elogio sincero e ao mesmo tempo um tipo de agradecimento, pois apesar de eu ser "normal", estava ali com eles, de igual para igual. É claro que isso deveria ser a regra mas a gente sabe que infelizmente é exceção. Aí se vê que apesar da gente não ser nada, "um simples sorriso, as vezes um olhar"** pode fazer toda a diferença no dia de uma pessoa. São gente com problemas e sonhos, iguais a nós. Ele me falou que sua esposa é viciada em crack e que está fora do programa pois arrumou confusão e foi presa (agora já está solta). Ele tem onde ficar mas muitas vezes deixa a cama no hotel, pega seu cobertor e vai fazer companhia pra ela na rua. Me disse que seu sonho é arrumar um emprego e poder tirá-la da região, pois vivendo lá ela consome muito crack. O que dizer? Me vi ali... Queria ficar mais tempo conversando com ele mas tive que ir embora. Ele pediu para eu voltar mais vezes. E eu quero voltar sim.

* Música "Duas de Cinco" - Criolo
** Música "Ainda Há Tempo" - Criolo

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