sexta-feira, 19 de junho de 2015

Drogas e a humanidade

Por E.


Todos nós que sofremos com a adicção de familiares e conjugues, os grupos de apoio, as clínicas, as campanhas anti drogas... Em todo lugar se ouve: "não use drogas", "droga mata", etc... Odiamos as "malditas drogas" que destruíram a vida de alguém querido e muitas vezes a nossa também...
Mas quando estamos doentes os médicos nos enchem de drogas para nos curarmos... 
A diferença entre o veneno e o remédio está na quantidade e na intenção que é usado.
O que seria droga? Se considerarmos droga tudo aquilo utilizado para alterar o estado de consciência, o homem sempre se drogou. Sociedades antigas, indígenas, sempre utilizaram de substâncias presentes na natureza em plantas e até em animais para se curarem ou entrarem em contato com o poder superior. Pasmem, não só os homens, mas muitos animais também ingerem plantas com o propósito de se "drogar", tanto de forma medicinal como recreativa (basta uma pesquisa rápida no google que verão vários exemplos).
De onde vem essa vontade de alterar o estado de consciência? A resposta está lá no início. Porque os xamãs utilizavam esses "entorpecentes" naturais? Para tratar males do corpo e da alma e para entrar em contato com o espiritual. Sim, estou querendo dizer que no início o uso de "drogas" (aqui estou me referindo ao sentido que dei ali no início do texto) era uma experiência espiritual. Hoje, como a palavra "droga" se tornou pejorativo, não é correto utilizá-la ao falar de xamanismo, pois colocaria tudo no mesmo barco. Não é essa a minha intenção.
A questão é que até esse momento algo que alterava a consciência não era uma coisa ruim. Afinal, como uma coisa vinda diretamente da natureza que foi criada por Deus, utilizada com a intenção de entrar em contato com Ele poderia ser algo ruim? Quem já tomou ayahuasca sabe do que estou falando. É uma experiência fantástica que abre sua mente, te leva a um estado de contemplação, de união, amor... Uma coisa é dizer que todos somos um, outra coisa é sentir isso. E com a ayahuasca eu senti. Percebi que nunca estive sozinha, nem quando estava revoltada com Deus e achava que ele não existia... Sempre estive amparada, e entendi tanta coisa que é difícil descrever com palavras... Senti que nada é por acaso e que tudo está interligado, o universo inteiro, as pessoas, a natureza, tudo! Com certeza foi uma das experiências mais importantes da minha vida. Foi um verdadeiro marco. A partir daí muita coisa mudou em mim. Depois daquele despertar peguei de volta as rédeas da minha própria vida e fui vivê-la.
Eu tinha um vazio existencial e não sabia como preenchê-lo. Sempre fui questionadora, nunca me encontrei nas igrejas cristãs (apesar de admirar Jesus), sempre tive curiosidade pela mente humana, porque as pessoas são como são e fazem o que fazem, de onde viemos e para onde vamos, se as religiões faziam sentido ou eram pura ilusão, filosofia, sociologia, etc. Não conseguia encontrar um sentido em tudo isso. Sempre fui solitária também, pois não era qualquer um que gostava de mim, nem eu me interessava por qualquer um rs. A medida que eu ia crescendo e minha curiosidade e interesse por essas questões iam aumentando, mais as antigas amizades foram ficando para trás, pois cada vez menos tínhamos coisas em comum. Poucas foram as amizades que duraram. E assim eu fui vivendo até começar a achar que havia algo de errado comigo, afinal eu parecia afastar as pessoas. 
Nunca tinha amigos, nunca tinha com quem sair. Então passei a tentar me adequar a sociedade. Queria desesperadamente um relacionamento amoroso, pois assim teria alguém, mesmo que fosse um só, mas esse alguém me tiraria da solidão e me faria feliz. Ou seja, eu nem tinha esse "alguém" ainda e ele já era o centro da minha vida... Já tinha dado a ele a missão impossível de dar sentido a minha vida. Além disso comecei a beber, coisa que antes eu não fazia não por falta de oportunidade, mas por falta de vontade mesmo. Não via sentido naquilo. Mas enfim, me curvei ao modelo socialmente aceito e passei a "beber socialmente". É claro que isso significa no início encher a cara de vodka e vomitar igual doida, dar trabalho pros outros e pagar uns micos... Mas aos poucos se pega o jeito... Nisso encontrei o adicto, me apaixonei e o resto da história vocês já conhecem... E só depois de muita loucura e sofrimento é que finalmente entendi. Entendi como o universo funciona, entendi que há sim um sentido para tudo isso aqui... e que a vida é bela, mágica e preciosa! E o começo do meu despertar se deu no dia que tomei ayahuasca pela primeira vez.
O que estou querendo dizer é que precisei de algo que alterasse minha consciência para finalmente começar a achar respostas para minhas questões e encontrar sentido na vida. Por que? Porque a ayahuasca não me fez ter alucinações, pelo contrário, ela me mostrou a realidade última do universo, ela rasgou todos os véus da matrix e me escancarou a verdade!
Vivemos num paradigma materialista, de separação. O outro não tem nada a ver comigo. Isso justifica guerras, roubos, assassinatos, discursos de ódio, etc. Somos estimulados a ganhar dinheiro a qualquer custo, a sermos melhores que os outros, pois os outros são sempre os concorrentes. Deus é um tirano, devemos obedecê-lo sem questionar ou iremos para o inferno. O que chamam de amor é posse. O que chamam de amizade muitas vezes é interesse. Enfim, não há muito espaço para um despertar espiritual nesse paradigma, certo? Fica difícil evoluir pois a matrix tenta te podar de todos os lados. Por mais questionador e revolucionário que seja o seu espírito, você acaba se cansando e se dobrando de um jeito ou de outro.
Mas olha que engraçado: substâncias tidas como "alucinógenas" vem abrindo a mente das pessoas. Para quem não sabe o LSD vem do Ergot, que é uma substância produzida por um fungo que cresce no centeio. Ele foi descoberto em 1943 pelo cientista Albert Hoffman que se contaminou com a substância sem querer quando pesquisava a substância com o intuito de produzir medicamentos. Vejam o que o próprio Hoffman diz sobre o LSD: “De extrema importância para mim é o insight de todas minhas experiências com LSD de que, num nível fundamental, o que tomamos como ‘a realidade’, incluindo a realidade individual de cada pessoa, não é algo fixo, mas algo ambíguo – de que não há uma, mas muitas realidades, cada uma compreendendo uma diferente consciência do ego. Também se pode chegar a essa conclusão por reflexões científicas. […] mas é fundamentalmente diferente chegar a isso pela racionalidade, com a lógica da filosofia ou dar de cara com a questão emocionalmente, através da experiência. […] Qual a diferença essencial entre a realidade do dia a dia e o quadro experienciado durante a inebriação com LSD? O ego e o mundo externo estão separados na condição normal de consciência, na realidade ordinária; a pessoa fica face a face com o mundo externo, ele se torna um objeto. Durante a experiência com LSD os limites entre o eu que vivencia e o mundo externo tendem a desaparecer, dependendo da profundidade da inebriação. […] Uma porção do eu transborda para o mundo externo, para os objetos, que tomam vida, ganham um significado mais profundo. […] Em um caso auspicioso, o novo ego se sente abençoadamente unido com os objetos do mundo externo e consequentemente com outros seres vivos. Esta experiência de profunda unidade com o mundo exterior pode até se intensificar para a sensação de unidade com o universo. Esta experiência de consciência cósmica […] é análoga à iluminação religiosa espontânea, a unio mystica. […] O conceito de realidade que separa o eu do mundo definitivamente determinou o curso evolucionário da intelectualidade européia. O que Gottfried Benn chamou de “a catástrofe esquizóide, a auto-perpetuadora neurose ocidental (western entelechy neurosis, no original)”. A experiência do mundo como matéria, como objeto do qual o homem é separado, produziu as ciências naturais modernas e a tecnologia – criações da mente ocidental que mudaram o mundo. Com a ajuda destas ferramentas os humanos subjugaram o mundo. Sua riqueza foi explorada e depredada, e a conquista sublime da civilização tecnológica, o conforto da vida industrial ocidental, está de frente com a catastrófica destruição do meio ambiente. Até mesmo ao coração da matéria, ao núcleo do átomo e sua partição, este intelecto objetivo progrediu e liberou energias que ameaçam toda a vida no planeta. Um uso equivocado do conhecimento […] não poderia emergir de uma consciência da realidade na qual os homens não são separados do ambiente mas existem como parte da natureza viva e do universo. Todas as tentativas de reparar os danos ambientais com medidas protetoras permanecem sem esperanças, são apenas remendos superficiais, se não houver cura para a “auto-perpetuadora neurose ocidental. A experiência de uma realidade unitiva é impedida em um ambiente tornado morto pelas mãos humanas, como é o caso presente nas grandes cidades e distritos industriais. Nestes lugares a separação entre o eu e o mundo externo se torna especialmente evidente. Sensações de alienação, solidão e ameaça surgem. […] No campo ou na floresta, e no mundo animal abrigado aí, na verdade em cada jardim, há uma realidade perceptível que é infinitamente mais real, antiga, profunda e mais maravilhosa do que qualquer coisa feita por pessoas, e que irá por fim prevalecer, após o inanimado, mecânico e concreto novamente sumirem, após apodrecerem e se desfalecerem em ruínas. Não estamos caminhando na direção de um sentimentalismo entusiasmado pela natureza, um “retorno à natureza” no sentido de Rousseau. Aquele movimento romântico, que buscava o idílico na natureza, também pode ser explicado pela sensação de separação entre humanidade e natureza. O que precisamos hoje é uma fundamental resignificação da unidade de todas as coisas vivas, uma realidade consciente e abrangente que cada vez mais infrequentemente se desenvolve de maneira espontânea, quanto mais a primordial flora e fauna de nossa mãe terra cede lugar ao ambiente tecnológico morto.“
 Não estou aqui defendendo que todo mundo saia usando drogas para se espiritualizar. A questão é justamente o como, onde e por que. Vou explicar.
Atualmente, por que as pessoas usam drogas lícitas ou ilícitas (pois sabemos que esse fator judicial não é muito importante, ambas tem poder de destruição)? Diríamos que para fugir da realidade. Realidade essa caótica, como já foi citado. Poderíamos também dizer que para preencher um vazio existencial. Ok, sabemos que ambas as afirmações são verdadeiras e no fundo são até sinônimos. Mas se perguntarmos para alguém que usa drogas recreativamente porque as usa certamente não vai dizer isso, mas sim que usa por diversão. Sim, é verdade. As pessoas buscam nas drogas (repito: lícitas e ilícitas) diversão, prazer. Num sentido mais profundo, podemos pensar que se a pessoa recorre as drogas para ter prazer, no fundo ela está procurando a felicidade, a tão idealizada felicidade que tanto se ouve falar mas ainda não encontrou. Seria o preencher o vazio? Sim, exatamente. Mas a questão é: a pessoa faz isso inconscientemente. A pessoa acredita que está realmente só buscando diversão, quando na verdade está  buscando algo muito mais profundo e complexo. Mas como somos comandados pelo ego, vivemos a vida no automático e raramente somos sinceros conosco mesmo e nos questionamos o porque do que fazemos... é mais fácil acreditar que é só diversão...
Qual a diferença dos índios xamânicos e os usuários de drogas? A intenção é a mesma. A diferença é que os índios são conscientes do que buscam nas substâncias que usam e as usam com respeito e sabedoria pois sabem que tratar de algo espiritual e sagrado. Já os usuários de drogas recreativas se enganam quanto ao real motivo de usar, usam sem moderação ou respeito por nada (quanto mais melhor) e pior: usam drogas fabricadas (substâncias químicas) para viciar e escravizar.
Como disse no início, o interesse do ser humano por "drogas" sempre existiu e no início era algo natural e até benéfico. Mas no paradigma vigente, adivinhem o que aconteceu? Alguém teve a brilhante ideia de ganhar dinheiro com isso. Passaram a fabricar drogas cada vez mais forte e viciantes. Essas já não mostravam a realidade como a ayahuasca dos índios, mas davam uma falsa sensação de felicidade e prazer tão grandes que as pessoas querem sempre repetir essas sensações. Droga só vicia porque é bom, se fosse ruim ninguém viciava. O problema é que essa sensação vai diminuindo com o passar do tempo. Quanto mais você usa, mais terá que usar para obter aquela mesma sensação... Aí seu corpo passa a sentir falta daquela substância mágica e a dependência passa a ser química, além de emocional. Pronto, instalou-se a doença que todos aqui conhecemos...
O que o paradigma vigente faz? Coloca tudo no mesmo saco com o rótulo de "drogas", recrimina tudo, proíbe tudo, e mesmo quando não é proibido (como é o caso da ayahuasca) dá um jeito de difamar e dar a entender que é tudo a mesma coisa, mesmo com os resultados mostrando o contrário. Assim, as pessoas que estão acostumadas a engolir tudo que sai na mídia sem questionar, acreditam e tratam com preconceito substâncias com alto poder de cura e libertação, o que poderia ajudar em um despertar de consciência coletivo e mudar o paradigma de toda uma sociedade. Mas é claro que isso fere interesses, por isso continua tudo como está. Além disso, proibindo estimula ainda mais a curiosidade (aquela curiosidade inerente pelo desconhecido, lembram?) das pessoas, principalmente dos jovens, que acabam fazendo uso de forma irresponsável e inconsequente, muitas vezes acabando com suas vidas e de seus familiares. Usam isso para confirmar que droga é ruim. Mas como cada um vê aquilo que quer enxergar... os conservadores só veêm o lado negativo: droga vicia, escraviza e mata; e os curiosos, só o positivo: é gostoso, divertido, prazeroso. Todos saem perdendo.

"Associada à pesquisa científica moderna, esta estrada (o uso moderado, informado e supervisionado de psicodélicos) pode nos levar a soluções sem precedentes para a crise atual. Não que qualquer pessoa deva usá-los. Pelo contrário. A ciência já mostrou de forma bem clara que há grupos de risco, e que o uso inconsequente pode ser devastador. Mas a prática milenar do uso destas substâncias por culturas xamânicas de todo o globo (e também de técnicas sem drogas capazes de produzir efeitos similares), comprovam que a indução esporádica de estados holotrópicos de consciência não é uma excessão, mas talvez seja a regra de muitas sociedades humanas ao longo da história. A excessão é justamente a proibição generalizada e desinformada que vigora nos últimos 40 anos, e que mais danos causou do que o próprio uso de drogas, mesmo quando feito da pior maneira possível, que é o que ocorre em um sistema de proibição, desinformação e violência. Nas palavras de Amanda Fielding: “Proibir estados alterados é não só inviável como pouco inteligente do ponto de vista evolutivo. Nós estamos em um período desafortunado, em que estados alterados da mente, exceto os produzidos pelo álcool, não são vistos como parte do desenvolvimento da civilização. Não acredito que essas experiências sejam algo que todos desejam. Mas existe uma minoria na sociedade que é exploradora das praias mais distantes da consciência, e a sociedade toda ganha quando permite e encoraja essas pessoas a trazerem ideias e insights desses estados”."


Fonte das citações: http://plantandoconsciencia.org/novoblog/2011/04/19/o-dia-da-bicicleta-2/




3 comentários:

  1. E assim caminha a humanidade...com passos de formiga e sem vontade...rs..como já disse o Lulu Santos...kkk...a gente tenta né nega...sempre tem alguém que ouve nem que seja um..rs..bju

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  2. Nem que seja você né rsrs... bjo

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