quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Tá bom, ou quer mais açúcar?

Por E.
Bom dia...

Hoje gostaria de compartilhar com vocês uma música simplesmente GE-NI-AL que provavelmente não seja o tipo de que a maioria aqui costuma ouvir. Eu mesma nunca fui de ouvir rap, mas quando parei pra ouvir o Criolo pela primeira vez, vi que tinha algo ali muito diferente. É um rap culto! rs. Ele faz uma crítica social muito inteligente, mostrando a realidade nua e crua das comunidades e da sociedade como um todo, em especial em relação as drogas. Tenho certeza que se parassem para analisar as letras dele, muita senhora que frequenta Amor Exigente e Naranon virariam suas fãs rs...

Acima o clipe, abaixo a letra da música e sua interpretação de termos e gírias, para ficar mais fácil o entendimento.

Duas de Cinco

Criolo

[Refrão]
Compro uma pistola do vapor
Visto o jaco Califórnia azul
Faço uma mandinga pro terror
E vou...


[Verso 1]
É o cão, é o cânhamo
É o desamor, é o canhão
Na boca de quem tanto se humilhou
Inveja é um desgraça, alastra ódio e rancor
E cocaína é uma igreja gringa de le chereau
Pra cada rap escrito é uma alma que se salva
O rosto do carvoeiro é o Brasil que mostra a cara
Muito blá se fala, a língua é uma piranha
Aqui é só trabalho, sorte é pras crianças

Que vê o professor em desespero na miséria
Que no meio do caminho da educação havia uma pedra
E havia uma pedra no meio do caminho
Ele não é preto véi mas no bolso leva um cachimbo
É o sleazestack, dos zóio branco, repara o brilho
Chewbacca na penha é maizena com pó de vidro
Comerciais de TV, glamour pra alcoolismo
É o Kinect do XBox por duas buchas de cinco
HA-HA-HA-HA-HA-HA
HA-HA-HA-HA-HA-HA
Chega a rir de nervoso, comédia vai chorar


[Refrão]

[Verso 2]
E eu fico aqui pregando a paz
E a cada maço de cigarro fumado a morte faz um jaz
Entre nós
, cá pra nós, e se um de nós morrer
Pra vocês é uma beleza

Desigualdade faz tristeza
Na montanha dos sete abutres alguém enfeita sua mesa
Um governo que quer acabar com o crack
Mas não tem moral para vetar comercial de cerveja

Alô, Foucault, cê quer saber o que é loucura?
É ver Hobsbawm na mão dos boy, Maquiavel nessa leitura
Falar pra um favelado que a vida não é dura
E achar que teu doze de condomínio não carrega a mesma culpa
É salto alto, MD, Absolut, suco de fruta
Mas nem todo mundo é feliz nessa fé absoluta

Calma, filha, que esse doce não é sal de fruta
Azedar é a meta, tá bom ou quer mais açúcar?
HA-HA-HA-HA-HA-HA
HA-HA-HA-HA-HA-HA
Chega a rir de nervoso, comédia vai chorar

“Vapor” são os mensageiros do tráfico. Geralmente são crianças ou adolescentes que ficam encarregados de levar e trazer drogas, armas ou recados para os traficantes.

“Califórnia Azul” é uma jaqueta da marca California Racing de cor azul que era sonho de consumo de 10 em cada 10 garotos que viviam nas periferias.

"Faço uma mandinga pro terror" Nesse trecho, Criolo quer transmitir que ele faz uma oração pro terror, já que com uma pistola na mão, coisa boa não pode acontecer…

“É o cão”, pode ser o cão do revólver, em referência ao start que leva a fuga da realidade e busca de drogas. O termo também pode ser interpretado como referência ao Diabo.

"Cânhamo", em inglês hemp, é a variedade industrial da Cannabis, sem THC, produzida em larga escala para obtenção de matéria prima (a fibra vegetal mais forte da natureza) que pode se tornar roupas, compostos rígidos semelhantes a plástico e até biocombustíveis.

"Canhão" Giria periférica para a arma.

"Na boca de quem tanto se humilhou" Esse verso se junta com a última parte da linha anterior, o canhão (arma) na boca de alguém, representa uma pessoa que se humilhou a vida toda, vivendo miseravelmente, acabando com sua vida de uma forma “mais fácil”, o suicídio.

"E cocaína é uma igreja gringa de le chereau" Essa rima é um jogo de palavras, primeiramente o “Le chereau” é um “afrancesado” do verbo “cheirar”. Mas também passa que a cocaína muitas vezes é como as obras de Patrice Chéreau, falecido em 2013, pois faz referência a obra “A Noite de São Bartolomeu” do escritor francês, onde a hegemonia da igreja católica é abalada pelo surgimento do protestantismo.

"Pra cada rap escrito uma alma que se salva" Os vários indivíduos que são resgatados pelo rap, como o próprio Criolo foi.

"O rosto do carvoeiro é o Brasil que mostra a cara"

Esse trecho fala do Brasil mostrando sua cara, com os “escravos do carvão”. Referência ao caso recente de Minas Gerais. Há inclusive um documentário dedicado a atividade. Confira aqui.

"Muito blá se fala e a língua é uma piranha, aqui é só trabalho, sorte..."
Aqui Criolo deixa bem claro pra todos os “faladores” de plantão que amam dizer que ele só chegou onde chegou por sorte. Na mente de Criolo, a sorte não existe, o que existe é trabalho e dedicação. Ao expressão “A língua é uma piranha” significa que se paga pelo que se diz. É bom segurar a língua e não sair falando qualquer coisa dos outros.

"sorte é pras crianças Que vê o professor em desespero na miséria" Todo mundo sabe que o professor no Brasil não é bem remunerado e mesmo assim, muitos dão aula porque gostam ou querem ajudar a população

 "Que no meio do caminho da educação havia uma pedra E havia um pedra no meio do caminho"
Aqui ocorre um intertextualidade, que segue nos versos seguintes, com o famoso poema de Carlos Drummond de Andrade. Nesta passagem, Criolo se refere a pedra, que é a forma na qual o crack é comercializado. A droga representa um obstáculo para a educação porque jovens e crianças se perdem por causa dela.Somado a isso, está a falta de interesse do governo e das empresas, que pouco fazem pela educação no país.

 "Ele não é preto véi Mas no bolso leva um cachimbo" Provavelmente uma comparação do usuário de Crack com o “Preto Velho” —entidade de Ubanda que possui a imagem de um velho negro de cachimbo.O cachimbo em questão também faz referência à forma de consumo do crack, mencionado nas linhas anteriores.

"É o Sleazestack, Zóio branco, repare o brilho" Aqui Criolo utiliza uma metáfora para comparar o usuário de cocaína/crack a um “Sleestak”, personagem da série americana chamada Land of the Lost. Ele possui grandes olhos arregalados, semelhantes aos olhos do indivíduo após usar cocaína.

"Chewbacca na penha" Aqui Criolo usa uma metáfora pra descrever o que acontece com o usuário de cocaína/crack: Provavelmente ele virará um Chewbacca (personagem peludo e descuidado do filme Star Wars) ou seja, um mendigo na rua da Penha, bairro de São Paulo, localizado na Zona Leste da cidade.
Penha também pode ser interpretado como um sinônimo de pedra, o que mais uma vez iria se referir ao crack.


"Maizena com pó de vidro" Mistura que os traficantes usam com a cocaína para aumentar o volume do pó e assim gerar mais lucros.

"Comerciais de TV, glamour pra alcoolismo" O trecho faz referência ao fortalecimento, por parte da mídia, da compra e consumo de álcool através de propagandas na TV, que vinculam a ideia de sucesso e felicidade à bebida.

 "E é o kinect do XBOX, por duas buchas de cinco"“Bucha” é uma expressão utilizada para se referir ao modo em que a cocaína ou a maconha é comercializada. É geralmente um saquinho de 1-2 gramas ou mais. No trecho, um viciado em drogas troca um Kinect, sensor de movimentos desenvolvido para o Xbox 360, que custa em torno de R$ 400,00 por duas buchas de R$ 5,00. Aqui Criolo demonstra o desespero do indivíduo pela droga.

"HA-HA-HA-HA-HA-HA HA-HA-HA-HA-HA-HA Chega a rir de nervoso, comédia vai chorar" Precedido de uma série de risadas maléficas, os versos são um jogo de palavras com duas antíteses, ou seja, aproximação de dois termos opostos (“rir de nervoso” e “comédia vai chorar”). Diante das reflexões e críticas que Criolo expõe, sem reação, a pessoa irá “rir de nervoso”; ou ainda, um “comédia” (alguém que não se leva a sério) irá chorar. Outra interpretação possível é em relação aos possíveis efeitos que as diversas drogas citadas pela música podem causar no usuário.

"E eu fico aqui pregando a paz, E a cada maço de cigarro fumado a morte faz um jaz Entre nós"
Não há dúvidas que o cigarro faz mal à saúde. E a cada maço de cigarro fumado, a morte se faz mais presente entre nosso meio.

"cá pra nós, e se um de nós morrer, Pra vocês é uma beleza"Cá entre nós, um rico não dá a mínima pra quando um favelado morre. Tal crença é confirmada por frases como “direitos humanos para humanos direitos” ou “bandido bom é bandido morto” tentando aprovar as violências cometidas contra aqueles que se envolvem no tráfico.

"Desigualdade faz tristeza" A desigualdade social é uma das maiores responsáveis pelo sofrimento do povo pobre.


"Na montanha dos sete abutres alguém enfeita sua mesa" Referência ao filme de Billy Wilder “A Montanha dos Sete Abutres”, de 1951, que é uma critica a mídia atual.

"Um governo que quer acabar com o crack Mas não tem moral para vetar comercial de cerveja" Diante do grande índice de dependentes de crack, chegando a 370 mil usuários apenas nas capitais do país houve uma maior atenção para este problema.
Contudo, não é há preocupação com o uso de drogas lícitas, como bebidas alcoólicas, como Criolo já critica no verso anterior, desta vez comparando com uma droga mal vista pela sociedade.
Curiosidade: Esta comparação entre drogas lícitas e ilícitas também foi feita de uma maneira inteligente pelo comediante norte-americano Chris Rock, em Never Scared (2004).

"Alô, Foucault, cê quer saber o que é loucura?" Aqui há uma referência à Foucault, referência acadêmica acerca da loucura, filósofo e autor do livro “História da Loucura”.

"É ver Hobsbawm na mão dos boy, Maquiavel nessa leitura" Pro Criolo, ver Hobsbawm na mão de leitores de classe alta é loucura. Eric Hobsbawm era um escritor e historiador marxista. Quando o playboy, teoricamente pessoa que usufrui dos benefícios da propriedade privada, lê suas idéias e é influenciado por elas, cria-se uma situação contraditória.
Isso seria, nos ideais de Nicolau Maquiavel, que é citado por Criolo, uma manobra de populismo por parte da classe alta, referente a obra “O príncipe”. Se apoderar dos ideais da classe média e baixa para assim, com a adesão desses, permanecer no poder, tapando o sol com a peneira.

"Falar pra um favelado que a vida não é dura" Muitos dizem que só entra para o crime quem quer, e que a vida não é tão sofrida a ponto de virar traficante. Porem, estes que falam, não vivem e não sabem da realidade periférica.
Também caberia uma referência às sentenças anteriores, onde, dentro de uma conjuntura da filosofia moderna, se coloca um ideal de liberdade e potência relativa, sendo as dores da vida do favelado postas sob o julgo de uma visão em que a superação e as microrrelações se tornam mais importantes do que as relações opressores do macropoder.



 "E achar que teu doze de condomínio não carrega a mesma culpa" A gíria “doze” se refere ao Artigo 12 da antiga Lei de Drogas (6.368/76), consagrada pelo uso na referência ao crime de tráfico de drogas:
Art. 12. Importar ou exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda ou oferecer, fornecer ainda que gratuitamente, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar ou entregar, de qualquer forma, a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar;1
Criolo aponta que o traficante de drogas que mora em condomínio possui a mesma culpa que o traficante favelado.
Outros grupos de rap conhecidos também fizeram músicas com essa temática, assim como ConeCrewDiretoria, na música Doce Doce, no seu primeiro CD, Ataque Lírico.

1: Vale lembrar que a lei atual de drogas (11.343/06) tipifica o tráfico no art. 33.


"É salto alto, MD, Absolut, suco de fruta Mas nem todo mundo é feliz nessa fé absoluta"
Salto alto, MD (droga sintética e o princípio ativo puro do Ecstasy), Absolut (vodca) e suco de fruta são presentes nas baladas e raves que jovens de classe alta frequentam.

Ao citar a realidade das raves e festas de classe alta criolo revela uma abdicação do senso crítico daqueles as frequentam ao usar a palavra “fé”. No mesmo verso ele questiona também os valores atribuídos pela população (em suma mais jovem) que ve no uso de drogas e nas festas um ideário de felicidade e prazer.

"Calma, filha, que esse doce não é sal de frutaCriolo faz um jogo de palavras com doce (gíria para LSD) e comprimido de sal de fruta (usado para combater azia).
Ácido também é gíria para a droga LSD, que é uma abreviação para “dietilamida do ácido lisérgico”, e um dos compostos do sal de fruta é o ácido cítrico, por isso Criolo faz a comparação.
 

"Azedar é a meta, tá bom ou quer mais açúcar?" Com as críticas que Criolo faz durante a música, ele apresenta sua meta: Azedar, ou seja, incomodar e questionar o estado atual. Com certo sarcasmo, pergunta se a pessoa ficou incomodada e perturbada demais, oferecendo “mais açúcar”. Outra interpretação abriga a lógica de que o LSD provoca uma sensação de azedo primeiramente. O que Criolo quis dizer com esse verso é que a intenção era azedar. Tá bom ou quer mais açucar? significaria a dosagem da droga. Açúcar seria o doce, LSD.

Fonte: http://genius.com/Criolo-duas-de-cinco-lyrics/

8 comentários:

  1. muito boa as explicações...espero que ao lerem esse post as pessoas leiam com humildade e reconheçam sua participação nas coisas que acontecem....é mais fácil apontar o outro do que olhar pros próprios erros....basta um pouco de humildade que podemos nos entender :)

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  2. Muuuuito Obrigado !!! eu tinha entendi algumas parte da musica do nosso criolo... mas valeu muito pesquisa ... Criolo um espirito elevado tentando mudar a direção do trem.

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  3. O rap talvez seja o estilo de música mais "cult" que existe...achei preconceituoso a forma como vc expôs sua admiração pelo cantor criolo.

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  4. "É um rap cult"
    Você sabe o que é o rap? Ja deixou de lado o preconceito e ouviu a crítica social por trás de Sabotage, Facção Central e Racionais?

    Comentário lamentável

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    1. tb achei o mesmo.as vezes a pessoa n faz por mal, é apenas fruto ad falta de conhecimento sobre o assunto

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  5. Ótima interpretação, muito esclarecida. Tenho muita admiração pelo Criolo, todas as suas músicas de certa forma buscam criticar um aspecto problemático da sociedade. Porém não é apenas o Criolo que possui esse caráter crítico em suas canções, muitos outros rappers transmitem mensagens maravilhosas através de suas letras, aliás, a maioria! Como o Criolo disse: " A cada rap escrito uma alma que se salva". Recomendo que escute mais rap, te garanto que irá se surpreender!

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  6. Nossa que Explicação excelente ! muito bom o site, gostei bastante! Poderia fazer mais dessas, super legal a iniciativa migrando da interação da norma culta com usual. Parabéns pelo site

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