segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Nós também precisamos de ajuda




A droga é um mau que tem se espalhado pelo mundo, destruindo pessoas, destruindo sonhos e destruindo famílias.
Esse assunto já foi visto com preconceito e marginalizado pela sociedade, hoje é reconhecido mundialmente como doença “Dependência Química”, pela OMS (Organização Mundial de Saúde).
Atualmente essa epidemia tem chamado a atenção das autoridades, que investem no combate as drogas e no tratamento dos dependentes químicos.
Existem inúmeros programas sociais voltados à recuperação do dependente, entretanto para que o tratamento seja feito, o dependente químico precisa querer se tratar e infelizmente esse número ainda é muito baixo.
Enquanto isso o dependente químico continua a se drogar, perdendo seus valores, sua dignidade, o respeito por si próprio e pelo seu próximo.
Os familiares são as pessoas que convivem de perto com essa doença, e vivenciam o dia a dia  de um dependente químico.
E esses familiares, vocês consegue imaginar como é a vida de alguém que tem um parente acometido por essa doença?

Abaixo conto a história de uma família cujos nomes citados são fictícios:

Joana  52 anos, funcionária publica, casada com Marcos,  56 anos Marceneiro, eles tem 2 filhos Ana Claudia com 24 anos e Ricardo com 20 anos.
Joana descreve seus filhos como pessoas tranquilas, inteligentes, caseiros que dificilmente  saiam nas noitadas em sua cidade.
Uma família “normal” de classe média e não uma família desestruturada , com problemas graves de relacionamento.
Pra Joana o assunto drogas, era apenas visto nos noticiários da televisão, ela nem imaginava que um dia as drogas estariam dentro de sua própria casa.
Ana Claudia, sua filha mais velha, prestes a se casar, com sua carreira profissional se estabilizando e Ricardo, o caçula, caminhava a passos largos a um futuro promissor, sua paixão por aviões, o fez escolher a profissão de piloto, dedicado e bom aluno, ele se destacava entre seus colegas de classe.
Joana estava feliz, tudo corria bem com sua família, até as drogas passarem a ser um assunto não somente dos noticiários e vir a fazer parte de sua vida real.
Um dia Joana encontrou uma “bituca” de maconha ao lado do computador de Ricardo, atônita pela descoberta, ela confrontou seu filho que negou, desconfiada Joana não acreditou e o levou para realizar um exame toxicológico o qual constatou a presença da droga em seu organismo.
Ricardo não podia mais negar, Joana imediatamente buscou tratamentos ambulatoriais com psicólogos e psiquiatras, Ricardo fez todo o tratamento e Joana acreditou em suas promessas de que nunca mais usaria drogas .
A vida da família voltou ao normal por algum tempo, até que um dia Ricardo foi  pra um acampamento da escola de aviação por 30 dias e após o término Ricardo não retornou pra casa.
Joana procurou Ricardo desesperadamente, foram à delegacia dar queixa de desaparecimento e depois de dois dias seu filho voltava pra casa, sujo, com as roupas rasgadas, abatido “um farrapo Humano” descreve Joana, e ao olhar em seus olhos ela teve a certeza, Ricardo havia se envolvido com drogas mais pesadas.
Quando o encontrou Joana relata seus sentimentos:

“Eu soube naquele instante que ele estava envolvido com coisas piores, quanta dor! O quanto de dor cabe num coração de mãe? Quanto de nossa alma morre junto com tudo de bom que sonhamos para um filho? Alguém consegue descrever a dor de uma mãe ao ter seu filho arrancado do seu colo? Porque foi isso que a droga fez comigo, roubou meu filho, arrancou meu bem mais precioso e jogou de joelhos no chão implorando por sua vida...”

Ricardo havia conhecido a cocaína e o crack

Em meio a essa constatação, Joana e seu marido Marcos sabiam que precisavam agir rápido, mais não sabiam como, se sentiam envergonhados, sem saber aonde ir e com quem falar, procuraram por médicos, amigos, padre, pastor e ninguém soube lhes dizer como agir.
Pesquisaram na internet encontraram um grupo de apoio à familiares de dependentes químicos, começaram a frequentar as reuniões aprendendo com a experiência de outras famílias que se encontravam na mesma situação, o que era essa doença, como ela afetava o dependente químico e a sua família.
A descoberta do uso de crack de seu filho,  havia acontecido a pouco mais de três meses, era visível a degradação a qual Ricardo estava se submetendo, a cada dia mais magro, mais agressivo, mais adoecido, a velocidade e o poder de destruição do crack são assustadoras.
Joana, tentava convencer Ricardo a aceitar uma internação, em vão, seu filho não enxergava a gravidade da situação, ele  não parava de usar drogas e Joana precisou tomar uma decisão: interna-lo involuntariamente.
Joana descreve como aconteceu:

“Nós levamos Ricardo até a clinica com o pretexto de apenas conhecer e conversar com o terapeuta, chegando ao local os monitores levaram meu filho pra dentro e de lá ele só sairia após concluir seu tratamento. Ao sairmos eu e seu pai nos abraçamos, chorando, sem rumo. Naquele momento pedi a Deus que me levasse desse mundo. Voltamos para casa e eu me sentia vazia, sem vida, levava minha rotina como um robô. Quando passava um avião e me lembrava de como era a vida de Ricardo antes e onde ele estava agora eu desabava e assim foram os 6 meses de internação. A ajuda do grupo de apoio e Deus foi o que me manteve de pé, nas visitas ele estava sempre muito medicado, bem mais forte, engordando e tranquilo. As cartas que ele nos enviava eram cheias de amor e agradecimentos, a agressividade dele havia desaparecido. O tempo passou, não sei como mas sobrevivemos.”

Após os 6 meses de tratamento, Ricardo recebia alta da clinica, ele estava dócil, com uma ótima aparência, Joana estava feliz, seu filho estava de volta, ela havia conseguido, todo sacrifício para pagar a clinica havia valido a pena, porém sua tranquilidade durou apenas 15 dias, logo aconteceu sua recaída e a volta  ao uso do crack.
Joana havia se desfeito de bens materiais por conta da divida com a clinica, ela e seu marido estavam financeiramente comprometidos e emocionalmente abalados com a recaída de Ricardo, ainda assim Joana queria ajudar a seu filho de alguma forma, então eles encontraram uma Comunidade Terapêutica bem mais barata, o tratamento era voluntário e Ricardo precisava concordar em ficar.
Passou algum tempo e  o crack continuava a matar Ricardo um pouco a cada dia, depois de muita conversa com seus pais, ele aceitou se internar.
A internação na comunidade terapêutica durou apenas 5 dias, como diz Joana “o monstro havia despertado”, Ricardo quis ir embora, a comunidade ligou pra seus pais irem busca-lo, o tratamento era voluntário e não poderiam obriga-lo a ficar.
Uma angustia imensa tomou conta de Joana, a dor da impotência de não poder evitar o que ela  sabia que estava pra acontecer, ela foi  pedir ajuda ao grupo de apoio o qual frequentava, e retornando de lá, havia tomado uma decisão, para tentar ajudar a seu filho, a decisão mais difícil de sua vida.
Joana sabia que o plano que ela colocaria em prática não lhe dava garantias, as chances eram de 50% de dar certo, naquele momento era a única solução que ela encontrará.
Ao retornar da comunidade terapêutica, ela junto com seu marido e Ricardo, pararam o carro em frente a sua casa e Joana então propôs ao seu filho: Caso ele quisesse voltar a morar naquela casa, precisaria aceitar uma internação em uma clinica involuntária, que ela e seu pai não iriam mais aceitar que ele morasse junto com eles enquanto ele estivesse usando drogas.
Ricardo tomado pela fissura, de forma agressiva recusou a ajuda, pegou seus pertences que estavam no carro e preferiu ir embora, Joana ainda insistiu e lhe disse que não estavam o expulsando de casa, que se quisesse ficar era apenas aceitar o tratamento, ele virou as costas e sem olhar pra trás desapareceu das vistas de sua família.
Joana descreve como se sentiu nesse momento:

“Pela segunda vez na vida me senti morrendo, infelizmente não era a hora. Estávamos eu, minha irmã e meu marido, corri para dentro de casa chorando e vomitando, gritava num travesseiro para abafar os gritos. Meu corpo caminhava e minha alma estava morta. Se passaram quase 10 dias sem noticias. Não o procuramos a cada noticia ruim que via nos jornais, meu coração ficava gelado de medo”.

Depois de 10 dias sem ter noticia alguma do filho, sua tia o avistou entrando em uma mata, próximo a cidade e avisou a Joana que foi até o local pra encontra-lo, o reencontro aconteceu dessa forma descreve Joana:

“Encontrei Ricardo sentado em baixo de uma árvore, estava sujo, barbado, magro, cheio de feridas pelo corpo causadas por insetos, ele havia dormido naquele local por esses 10 dias. Perguntei como ele havia se alimentado, ele respondeu que havia pedido nas casas, essa hora meu coração partiu em mil pedaços, mais me mantive serena e continuei a conversar, lhe disse que estava ali pra lhe oferecer ajuda que iriamos leva-lo até uma clinica, mas que se ele não quisesse não tinha problema algum que eu iria embora, ele pensou por alguns minutos e respondeu que sim, queria se internar, eu calmamente lhe perguntei de novo, você tem certeza, não quer pensar mais um pouco e amanhã eu volto pra você decidir, ele começou a chorar e disse: me leva por favor não aguento passar nem mais uma noite aqui.
Fomos pra casa, ele pegou o pouco que lhe restara das suas roupas e fomos, mas desta vez ao chegar à clinica, estava sorrindo, abraçando a todos e agradecendo a oportunidade, pela primeira vez fui embora em paz, senti que começávamos a encontrar a saída, eu precisei deixar  que ele fosse até o fundo do poço para que ele reconhecesse e entendesse a gravidade e a profundidade do problema.”

Depois de sua 3º internação, aconteceram mais duas, quando Ricardo percebeu que iria recair, pediu pra voltar pra mesma clinica que havia ficado e lá permaneceu por mais dois meses, saiu bem, mas infelizmente voltou a recair, Joana conta como a situação de Ricardo se agravava:

 “Foi uma recaída feia, não queria ir pra clinica, ficou agressivo, chegou a amolar um punhal e disse ao pai que ia me matar, nessa hora a gente pôde comprovar que a serenidade, o amor e o bem falar surtem mesmo efeito. O pai conversou com tranquilidade com ele por algumas horas, reafirmou nosso amor e nossa disposição de ajudá-lo. Ao final da conversa ele entregou o punhal e aceitou ir para a clinica, por onde ficou mais 5 meses. Dessa vez com muita força de vontade, não houve qualquer situação que chamasse atenção, se comportou exemplarmente. Saiu fortalecido e assim continua até hoje”

Além da dor de ter um filho se perdendo nas drogas, Joana precisou conviver com a morte de perto, nas suas 4 primeiras internações Ricardo tentou o suicídio por 10 vezes, quase sempre era encontrado desmaiado, Joana conta como viveu esses momentos de desespero:

“Aquela coisa que dizem que tentou o suicídio pra chamar a atenção não se aplica, ele tentava pra valer. Nossa sorte foi que sempre Deus colocou alguém de plantão. Todas às vezes foram por enforcamento, menos a última. Nos enforcamentos ele usava qualquer coisa disponível, cadarço de tênis, fio elétrico, fita de cobertor. Foi retirado desacordado na maior parte das vezes, pescoço com cortes das fitas ou cordas, coisa de segundos para não ter volta. Na última vez ele cortou uma veia do braço, se trancou no banheiro e quando foi encontrado já tinha perdido uma quantidade enorme de sangue, foi um desespero, enrolaram ele no tapete da sala e colocaram na caçamba da caminhonete, não dava tempo de chamar ambulância. Chegou ao hospital desfalecendo , foi uma correria para reanimar. Eu não conseguia imaginar como trazer a ele a vontade de viver perdida, o que doía mais era isso, saber que ele desistiu, que nada nem ninguém conseguia mudar isso, que ele estava disposto e assim que alguém distraísse ele poderia fazer novamente. Não adiantaria tirar ele da clinica, lá ele tinha mais pessoas supervisionando e aqui talvez eu não conseguiria cuidar 24 horas por dia. Não tem como descrever a nossa dor e desespero, lágrimas e orações, foi nisso que se transformaram minhas horas e dias. Qualquer toque do telefone e eu me desesperava, a cada dia que terminava e ele estava vivo, eu agradecia a Deus.”

Hoje Ricardo retomou seus planos, voltou a trabalhar na área de aviação e pretende retomar os estudos. Só por hoje, ha 19 meses Ricardo está limpo.
Joana finaliza seu relato, deixando suas conclusões que conta como mãe de um dependente químico.

“Senti falta de apoio  quando procurava desesperadamente por pessoas queridas que o visitassem, quando estava no fundo da depressão, e não encontrei ninguém,  senti falta de profissionais preparados (na minha cidade) na área de psicologia e psiquiatria, com conhecimentos em drogadicção, os que procurei ante ,nos intervalos e depois das internações, me decepcionaram.
A certeza que me fica é de o tratamento - a internação - é necessária, de que a família tem que ser firme e não pode desanimar. Podemos precisar de uma, dez ou cinquenta internações, mas em uma delas podemos achar à última Não sei se ainda teremos mais internações, a recaída é um fantasma que nos assombra, mas sei que se não tivéssemos a coragem de fazer o que era preciso, ele não estaria mais entre nós.”

Infelizmente no Brasil, todos os tratamentos gratuitos são oferecidos somente aos  dependentes químicos que aceitem se tratar, enquanto isso familiares se desesperam sem ter aonde recorrer.
Normalmente o familiar só toma conhecimento de grupos de apoio voltados  para a  família, depois que seu ente querido foi internado ou buscou ajuda em um grupo de anônimos .
Os familiares acabam tendo suas  vidas condicionadas a vida do dependente químico, e no desespero de tentar salvar, se perdem de si mesmos, indo ao extremo do sofrimento da dor humana
Os familiares desconhecem que a dependência química, tem por trás outra doença que os afeta diretamente a codependência.
A internação involuntária no Brasil, só é feita em clinicas particulares.
Internações compulsórias, somente em casos extremos, quando o dependente químico atenta contra sua própria vida ou a de outros e com ordem judicial.

Enquanto isso não acontece como uma família consegue  sobreviver a essa situação sem apoio?

Quantas Joanas existem sofrendo em silêncio sem saber aonde buscar ajuda?





Será que alguém consegue nos enxergar?







6 comentários:

  1. Infelizmente o que existe é pouco... os grupos são poucos conhecidos... no entanto... eu deixo uma pergunta :
    "Quantos familiares ainda acham que o grupo de apoio à familia é uma besteira?"
    "Quantos conhecem o caminho do grupo, mas não vão porque a novela é ainda mais interessante?"

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    1. Pois é estou mudando minha forma de pensar...sim realmente existe pouca divulgação sobre a codependência...muito pouco..mais já existem programas que nos auxiliam, e muito, como contado pela "Joana"....preconceito talvez...não sei...muito se pensa em fazer diferente, porque não podemos aumentar ou aperfeiçoar o que já existe..talvez porque não exista um retorno?...não sei...mais sim precisamos de pessoas nessa luta...nas salas, nos grupos, ajudando a divulgar...que comece por mim...sempre

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    2. Como eu sempre digo: Papai do Céu está capacitando os escolhidos....ele precisa de um exército!

      Janete

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    3. NOSSAAAA...COMO ESSA REALIDADE DÓI...A IMPRESSAO QUE TENHO É QUE O FUNEDO DO POÇO NAO TEM FIM MAS TENHO A ESPERANÇA E A FÉ EM DEUS E SEI QUE AQUILO QUE É IMPOSSIVEL PARA O HOMEM É POSSIVEL PARA DEUSSSS......SÓ DEUS PODE MUDAR A HISTÓRIA DE UM DEPENDENTE.....

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    4. Abraço a "Joana" e hoje, com muito mais respeito e carinho! E não tem jeito Kel, quando cruzamos o rio e vemos que tem terra firme deste lado queremos fazer um barquinho e ir "resgatar" todo mundo que continua do outro lado, perdido...se afogando MAS, não funciona assim (primeiro quer salvar o adicto agora os codependentes...rsrsrs.....). Brincadeiras a parte, a Cicie exemplificou o que vemos nas salas (ou não vemos). Mega beijos

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  2. kkk..mais é mesmo isso dona barriga, pq vc acha q sai do grupo virtual, tava trocando um adicto por um monte de codependente..kkkk...sim to revendo alguns conceitos quanto a ajuda aos familiares...voltamos aquela questão..precisar de ajuda todos precisam, mais quantos de fato aceitam e querem?..te amo bju

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