segunda-feira, 3 de junho de 2013

MULHERES QUE AMAM DEMAIS





Grande reportagem: Mulheres que Amam De Mais

“Amor é fogo que arde sem se ver”. Mas e quando este fogo queima? Queima e incendia, e arrasa e transforma em cinzas tudo em que toca? A destruição associada ao fogo também é encontrada nas coisas mais puras, e o amor não é excepção. Estas mulheres contam-nos como é sofrer com o melhor sentimento do mundo.

“É como ter uma droga”. Por mais que tente disfarçar a dor que sente, esta sempre escapa pelos seus olhos. E Teresa bem tenta. “É como ter uma droga que nos obceca. Ficamos obcecados e não nos conseguimos libertar dessa droga”. Fala cada vez mais rápido e repete-se. Repete-se pois não consegue explicar por outras palavras o que sente. É complicado. Afinal, como se explica o amor?

“Eu fazia tudo por ele. Dava-lhe mais valor do que a mim”. Cláudia não mascara tão bem a angústia e não parece preocupada em tentar. Tem uma postura frágil que faz querer abraçá-la como a uma criança indefesa durante uma tempestade. Dá a impressão de que a qualquer momento se despedaçará em mil bocados no chão.

O martírio destas mulheres foi apenas um. Amaram. Amaram mesmo. Amaram com força. E amaram de mais.       hlhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh                            
Não souberam parar, ultrapassaram os limites do equilíbrio, e venceram a corrida. Mas a meta era a doença. Chegaram à co-dependência.

“A co-dependência é a doença da perda da alma ou de nossa verdadeira identidade”, explica Roberto Ziemer, psicólogo social e terapeuta, de uma forma romântica e enfeitada, num artigo do Instituto Brasileiro de Plenitude Humana.
Objectivamente, “é uma dependência emocional por um outro ser humano”, esclarece a Dra. Judite Fortuna, socióloga e terapeuta do Centro Villaramadas, ou seja, é quando alguém toma o outro como “o centro do seu mundo”.

É uma dependência emocional pois leva ao apegamento a um sentimento forte, difícil de quebrar, e impede a pessoa de seguir a sua vida de modo funcional. “Alguém não consegue agir saudavelmente e sair de um ciclo prejudicial, e não há nenhuma dependência química, como às drogas, nem nenhuma dependência comportamental, como ao jogo, mas há claramente uma dependência sentimental”, acrescenta Judite.
Mais simplesmente, e com a calma de quem já teve muito tempo para reflectir sobre o assunto, Teresa chama-a a “doença dos sentimentos”.

Amar de mais surge então como sinónimo desta doença. Amar sem equilíbrio, “de uma forma disfuncional”, diz Judite. “Eu não chamo isso amor, mas há quem chame”.
Maria, de 23 anos, chama.
Para si, o seu comportamento obsessivo baseia-se num excesso de amor, até porque não é explicado através de nenhum “laço eterno como o de um pai ou de um familiar”.

 Conheceu o João em 2007 quando começaram a trabalhar juntos. Desde cedo se tornaram muito amigos e a dependência química dele ainda era por Maria desconhecida.
Poucos meses depois João foi internado numa clínica de reabilitação e perderam o contacto mas, quando se reencontraram três anos mais tarde, o amor teve finalmente espaço para surgir. “Ele era sempre muito carinhoso e atencioso”, conta Maria. Para iniciarem um romance oficial não demorou muito. O seu ciclo começava aí.
Um mês e meio depois de começarem a namorar, João foi novamente internado, pois  roubou o carro do pai acompanhado por um traficante e teve um acidente. Ficaram três meses sem se ver, até à sua saída da clínica. “Ele vinha cheio de planos e ideias e achei que o pesadelo tinha acabado”, conta. Estava errada. O pesadelo apenas tinha sido adiado por dois meses, até à próxima recaída de João, e uma nova internação. Dois meses também foi o tempo que mais uma vez estiveram afastados. Quando o amado voltou, Maria tinha “a certeza de que ele tinha mudado”. Contudo a mudança durou apenas quatro meses.                 
Maria terminou o relacionamento desta vez mas voltou atrás com a decisão. “Novos planos, novos sonhos, novas promessas...” Dois meses depois João tinha outra recaída. Nova clínica de reabilitação, até os dias de hoje. Maria terminou mais uma vez o relacionamento.
O seu amor levou-a a dedicar-se completamente a ele. Bateu no “fundo do poço” e chorou muito. Amadureceu muito nos últimos anos pois “é pela dor que se aprende” mas, ao mesmo tempo, admite que ainda não conseguiu desligar-se emocionalmente do ex-namorado.

Daqui a duas ou três semanas João sairá da clínica e Maria não sabe como agirá quando ele a for procurar, quando o voltar a ver. Ainda está muito confusa em relação a tudo, reconhece com um misto de vergonha e tristeza.
Costuma dizer que o João se tornou a sua droga.  “Mesmo sabendo que o relacionamento traz dor, sofrimento e que não me está a fazer bem, eu ainda o quero”.

“A co-dependência acontece muitas vezes de mães para filhas por exemplo. Vamos dizer as estas mães que não amam as suas filhas? Não. Mas que têm um desvio no seu conceito de amar ou na forma de manifestar esse amor”, afirma Judite Fortuna, concluindo o seu raciocínio.

Desamando-se amam

Para a socióloga do Centro de Tratamento Internacional Villaramadas, a questão não é tanto o excesso de amor pelo o outro, mas sim a falta de amor próprio e auto-estima. Isto leva o co-dependente a amar o outro sem se amar a si primeiro, “perdendo o respeito por si, por suas prioridades”, e a deixar de cuidar da sua vida nos vários contextos: família, trabalho, amizades, divertimentos, saúde, etc.

De falta de auto-estima também sofre Cláudia.
Paciente do Centro Villaramadas, aos 22 anos, Cláudia já sofreu de mais. Aliás, tudo na sua vida parece ser de mais: o amor, a euforia, a paixão, os sonhos, a dor.

“Eu não gosto de estar sozinha”, confessa, “não me sinto bem sozinha porque sinto necessidade de ter alguém ao meu lado que me aprove”.
A dependência levou-a à internação há três meses numa das poucas instituições preparadas para lidar com a co-dependência em regime de internamento em Portugal, por iniciativa dos pais.
“Não me consigo aprovar a mim mesma, por isso sinto necessidade de ter alguém ao meu lado que me aprove, que goste de mim, para me sentir melhor, para sentir que tenho algum valor”.

A sua doença revelou-se desde cedo. Começou com os amigos, “queria sempre ter mais e mais” para preencher um vazio que por dentro sentia, e depressa avançou para os relacionamentos amorosos com os rapazes.
 Olhando para trás, percebe que sempre foi “muito dependente principalmente do sexo masculino”. Consegue interagir bem com as mulheres “e isso” mas, por ter sido vítima de bullying na escola por parte de raparigas, tem problemas em lidar com elas. O seu refúgio para todas as horas sempre foi o sexo oposto.

Não sabe se o bullying foi a causa do vazio que sente, mas pode afirmar com certeza que não se ama a si própria. Não se consegue amar, e sente falta de alguma coisa. A angústia emana naturalmente dela.

O pavor de Cláudia de ficar sozinha, e a necessidade de ter sempre alguém ao seu lado, para sentir que tem valor, levaram-na a continuar o ciclo vicioso e, de amigo em amigo, e mais tarde, de namoro em namoro, lá foi agravando a sua doença, que segundo a socióloga é progressiva, e trocando o objecto da sua obsessão. Até que chegou ao seu último namorado, o Rui.

“Eu já o conhecia desde os 15 anos”. Tinham namorado quando ambos andavam na escola porém ele foi viver para França, provocando o fim do relacionamento.
Um reencontro em 2010 reavivou a paixão de ambos e o desejo de Cláudia de amar e de ser amada. “Olhando para trás ainda sinto raiva de mim.” Foi viver com ele para França.
A fase inicial foi boa como em todos os relacionamentos. Viviam com os pais e os irmãos dele e estes tratavam-na como se fosse da família. Arranjou um emprego e ajudava em casa como podia, no entanto, sempre dependeu dele “para tudo”. Todos previam que o caso não correria bem.
“Eu fazia tudo por ele, dava-lhe mais valor a ele do que a mim”, afirma com a dor que já se torna comum no seu discurso. “Os meus valores, as minhas qualidades...passei por cima de tudo para ficar com ele”.

Viver em função do outro (se o outro está feliz o co-dependente também, se estiver triste, o co-dependente mais triste ainda está), colocar as necessidades do outro acima das suas, deixar a sua vida para segundo plano, amar o outro acima de tudo, ter uma visão distorcida do outro, que o engrandece, e sentir necessidade de ser necessária são alguns dos comportamentos típicos dos co-dependentes.
O co-dependente transfere para outro a responsabilidade pela sua felicidade. Segundo Roberto Ziemer, a perda da alma provoca uma distância tal da verdadeira identidade que o dependente passa a acreditar na sua inexistência e “que apenas alguém, ou algo fora” dos mesmos “pode trazer a felicidade”. 

Para Robin Norwood, terapeuta estadunidense e autora do livro Mulheres que Amam De Mais, ser co-dependente significa linearmente: criar uma obsessão, “chamá-la de amor”, ser controlada pela mesma afectando negativamente a sua saúde e bem-estar, e contudo ser incapaz de pará-la. Amar de mais é amar de forma doentia, controladora e obsessiva.

Mulheres?

“Tanto acontece nos homens como nas mulheres”, alerta a socióloga Judite Fortuna. “Numericamente são mais as mulheres de que os homens mas não é um assunto de mulheres”.
Apesar do nome do livro, que é hoje considerado a bíblia da co-dependência, e de vários grupos de ajuda de co-dependentes anónimos distribuídos pelo mundo se intitularem “mulheres que amam de mais anónimas” (MADA), esta doença afecta os dois sexos.

A diferença numérica explica-se por factores como os fisiológicos e socioculturais. “A parte neurológica é diferente entre homens e mulheres”, explica. “As mulheres são mais propensas às emoções, ou seja, a prioridade ou o impacto das emoções nas mulheres é maior”. Por outro lado, os homens estão mais virados para a organização e tarefa por isso, segundo Robin Norwood, muitas vezes as obsessões que criam estão relacionadas com trabalho, desporto ou passatempos. “Isto tem a ver com a divisão das funções neuronais pelos dois hemisférios”, completa.
“Mas também existe a componente sociocultural. Por hábito e por cultura as mulheres são mais viradas para prover às emoções, ao bem-estar e à saúde emocional das suas famílias, e os homens são historicamente virados para cuidar do trabalho, do rendimento”.
Judite Fortuna crê que, caso fosse feito um estudo sociológico, o resultado apontaria para uma maior percentagem de co-dependentes no sexo feminino pois, de certa forma, ainda se vê o resultado desta divisão tão clara de tarefas na sociedade.

“Aprendemos desde criança, principalmente as mulheres, que por exemplo o casamento deve ser para a vida toda”, diz Rachel. As mulheres são vistas como as salvadoras do lar e as ideais esposas perfeitas que têm de suprir as necessidades de todos, e acabam por se “sentir culpadas quando percebem que elas também têm necessidades”. Foi assim que se sentiu ao longo de um casamento de seis sofridos anos. 

No entanto, na sua experiência como terapeuta e socióloga, Judite já viu esta dependência “a acontecer com muitos homens também”. Começaram a surgir nos últimos anos, paralelamente aos MADA, cada vez mais grupos de Homens que amam de Mais anónimos (HADA), pois há uma maior abertura por parte dos homens para falar sobre os seus sentimentos, segundo a psicanalista e autora de Hades – Homens Que Amam Demais, Taty Ades,  mas o receio de ser considerado “menos macho” persiste.

“Nunca me senti acarinhada na infância”

 Robin Norwood defende que a origem da co-dependência é a infância. “Muito daquilo para o que são atraídas é a réplica do ambiente onde cresceram”, escreve no seu livro. As mulheres que amam de mais são pessoas que vêm de lares disfuncionais e, quando crescem, continuam “integradas nos papéis que desempenharam” nos primeiros anos de vida. “Para muitas, esse papel significava a negação das suas próprias necessidades na tentativa de ir ao encontro das necessidades dos outros membros da família”.

Já a clínica Villaramadas defende uma posição diferente. Baseando-se na sua experiência e em estudos científicos recentes afirmam que, tal como todas as outras dependências, a co-dependência “é um fenómeno eminentemente da propensão genética com que o ser humano nasce”. Esta tem mais impacto no facto de a pessoa desenvolver uma dependência ou não do que o ambiente familiar em que ela vive. 
“A propensão”, explica Judite, é no fundo a tendência para “pensamentos obsessivos, sentimentos negativos, comportamentos compulsivos, destrutivos e autodestrutivos”, e de forma geral uma deficiência em gerir sentimentos.

“Nunca me senti acarinhada na infância, no entanto olho para a minha irmã, e nós temos apenas seis anos de diferença, e ela está bem”. Teresa, aos 44 anos, conseguiu perceber que todo o mal que lhe acontecia não era culpa da família e do meio rural onde cresceu. “Passei a minha vida inteira a acusar toda a gente que me rodeava”, conta. “Culpava os meus avós porque vivi com eles até aos nove anos e eles eram muito crentes e muito pobres. Culpava a minha mãe por ter emigrado quando eu era muito nova. Culpava todos.” Na sua percepção, tudo aquilo pelo que passou na infância e na adolescência era a causa da sua baixa auto-estima e do seu sofrimento.

Na verdade, o sofrimento de Teresa teve apenas uma causa: amor (falta ou excesso).
Quando entrou no Centro Villaramadas, a pedido da irmã e dos pais, todos achavam que sofria de depressão, mas o diagnóstico era outro.
Ao que uns chamam doença, Teresa chama amor. Amava o seu ex-marido, sem dúvida, só que de uma forma desigual. “Quando eu amo alguém, entrego-me toda a essa pessoa, chegando ao ponto de me esquecer de mim própria”.

Foi o que aconteceu. Diluiu-se num casamento que, olhando para trás, lhe era prejudicial. “Havia muita manipulação e estratégia” da parte dele. Ele conhecia-a muito bem, muito melhor do que ela própria, sabia o quanto ela lhe era dependente e, como tal, magoá-la e mantê-la no mesmo lugar não era difícil.

Com angústia no olhar conta como quando recebiam amigos em casa, ela apenas os servia “como uma empregada”, enquanto ele se sentava à mesa “a falar como se fosse o rei”, ou como quando iam a um baile da aldeia, ele era capaz de “correr o baile todo” em vez de dançar com ela, para provocar ciúmes, e como acabou mesmo por virar o filho de nove anos de ambos contra ela.

  “Durante todo o tempo em que namorei com ele e fui casada dei-lhe sempre mais valor a ele do que a mim”, diz hoje, ressentida. “Era como se ele fosse uma bengala para mim, se a bengala falhasse dava-me a ideia que eu ia cair, que não saberia orientar-me.”
Todas as decisões dependiam dele e a Teresa faltava autonomia. Não consegue nem dizer quanto gastava mensalmente com a água e a luz, porque ele controlava tudo, incluindo a área financeira, fazendo com que Teresa não se achasse capaz de tomar as decisões mais básicas. Manipulador, é como agora lhe chama.

Agressões físicas nunca houve, mas para lá caminhavam. Ele tornava-se cada vez mais violento nas discussões. As palavras, no entanto, doíam muito mais do que qualquer toque físico. Expressões como: “se continuas assim atiro-te ao poço”, mantiveram Teresa presa. Numa prisão voluntária.

Quando finalmente atingiu o limite e pediu o divórcio, Teresa sentiu uma “força muito grande”, como se tivesse reunido toda a sua vontade para vencer a batalha, porém, esta viria a desvanecer. Era só mais uma batalha, e não a guerra.
O companheiro avisou-a que mesmo com o divórcio ela voltaria para ele, pois não consegue viver sozinha. Tinha razão.
 Não fosse o apoio insistente de amigos e familiares, Teresa teria voltado.

Com o divórcio e o passar do tempo começou a sentir-se cada vez mais isolada e a aperceber-se da “história em que estava envolvida”, do tempo que perdeu com ele. Sentimentos cada vez mais negativos começaram a dominá-la. Surgiam como uma avalanche e bloqueavam-na. Raiva, revolta, cansaço, tristeza. “Sofri muito, chorei mais ainda”. Raiva, revolta, e raiva outra vez, contra ele e contra si subjugavam-na.
“Dei-lhe tudo. Era uma mulher como no tempo da minha avó e da minha mãe.” O seu tom de voz sobe, e gesticula cada vez mais. “Submissa ao ponto de não respeitar os meus próprios pensamentos e de gostar mais dele do que de mim”.
Estava em depressão.

Foram sete anos de namoro e nove de casamento que Teresa nunca vai recuperar. Aguentou sempre e fez de tudo para manter a relação pois achava que sem ele não sobreviveria mas garante orgulhosamente que a “asneira” que fez não foi por ele, porque ele não merece nem uma lágrima. Foi pelo que sentia e já não aguentava sentir, conta desanimadamente.
A verdade é que, sem ele, tentou por duas vezes cometer suicídio.

“Hoje percebo que é mesmo a minha constituição, a minha maneira de ser.” Após cinco meses no centro Villaramadas, mais conformada e a caminho da recuperação já aceita o seu passado. Fez as pazes com o que passou e com a antiga Teresa, e preocupa-se agora em seguir em frente. “Finalmente descobri que tenho uma doença”.

A co-dependência é um diagnóstico dificilmente aceite pela população em geral, e especialmente pelos médicos, segundo a autora de Mulheres Que Amam Demais, pois tem como objecto de obsessão uma pessoa e não uma substância ou um comportamento, como o vício ao jogo. Para além disso, todos parecem ter uma ideia pré-concebida do que é o amor e de como é natural que traga sofrimento. Não obstante, Judite Fortuna afirma que é sim uma doença, pois “não é um estado saudável”, e que deve ser equiparada a outros vícios porque “prejudica a vida das pessoas de uma forma que elas não conseguem controlar”. A pessoa deixa de ter capacidade e liberdade de escolha para funcionar de forma adequada nos vários contextos da vida e muitas vezes a família, a relação com o trabalho e as amizades vão-se destruindo devido à dependência. Infelizmente “as pessoas não reconhecem este tipo de problemas enquanto não acontece com alguém que conheçam ou consigo”.

“Parecia que o meu mundo terminava”

Tal como em todas as outras dependências, as pessoas normalmente manifestam sintomas de abstinência quando longe do objecto da obsessão. Apatia, enorme vazio, perda de propósito para a vida, grandes sentimentos de inutilidade, inferioridade, tristeza, muitas crises de ansiedade, choro compulsivo, alteração dos padrões de sono, deixar de comer, alteração do padrão alimentar, perda de peso, falta de interesse, falta de satisfação, entre outros. Ou seja, “estão cumpridos todos os critérios básicos para um diagnóstico de depressão”, informa a socióloga, e no fundo, “aquilo que causou esta depressão foi uma co-dependência”.
Por isto, a maioria dos co-dependentes internados no Centro Villaramadas entra com um diagnóstico de depressão. “A pessoa pode tomar anti depressivos, ansiolíticos, comprimidos para dormir mas não se resolve o problema se for uma co-dependência, atenuam-se apenas os sintomas”.

Cláudia não foi excepção.
Quando Rui terminou o namoro, depois de dois anos de relacionamento, foi como se tivesse perdido o chão. “Senti que não servia para nada, que era uma inútil”, conta desolada.
A felicidade parecia-lhe impossível, longe do seu desejo. Mais uma vez foi dominada pelo medo da solidão e a certeza de que, apesar de ser nova, nunca mais outro alguém a amaria. “Parecia que o meu mundo terminava aí”.
O seu corpo, enquanto cruza e volta a cruzar as pernas ficando numa posição visivelmente desconfortável, grita que não quer estar ali. Naquela sala. Naquele espaço. Talvez até naquele mundo, naquela vida.

Não tinha auto-estima, não tinha amor-próprio, não tinha vontade de viver. Anulara-se numa relação e agora, sem a personalidade do outro, nem conseguia dizer quem era.
“Chorei imenso, muito mesmo”. A sua expressão sombria não deixa duvidar.
Lamentando-se a suspirar, reconhece a loucura nesta relação que foi ter “deixado a sua família e o país por um homem”. Frisa nesta relação porque, sendo os relacionamentos disfuncionais uma prática comum da Cláudia, nem consegue contabilizar tudo o que já fez pelos parceiros.

 A ansiedade da separação chegou ao pico do sustentável e Cláudia teve de voltar para Portugal, para junto dos pais e da irmã, para melhor se confortar na dor. Pouco tempo depois estaria internada.

Com o rompimento, os pensamentos suicidas, que sempre a acompanharam, voltaram a despontar, e mais uma vez pensou em levar o acto até ao fim. Apoiou-se no amor, que por vezes também salva, da sua família. Caso fosse avante, esta seria a sua oitava tentativa.

Para Judite isto faz todo o sentido, afinal, “se a co-dependência se caracteriza pela pessoa viver em função do outro”, afirma como se estivesse apenas a apontar o óbvio, “se o outro desaparece, a co-dependência pode conduzir ao suicídio”.


Depender da dependência

“Acontece muito situações de dependência de alguém criarem no seus cuidadores situações de co-dependência”, diz Judite. Ter a propensão genética para criar dependências, e amar e sentir-se responsável por alguém que de certa forma se está a destruir, seja com drogas ou outros comportamentos destrutivos, é a “receita perfeita para o surgimento de uma co-dependência”.

Por isso as dependências químicas, ao álcool ou drogas, e as dependências comportamentais, como o jogo, a anorexia, a bulimia ou a automutilação, muitas vezes despertam, nas pessoas que rodeiam os adictos, a co-dependência, “desde que estes já tenham a propensão”, e se torna tão comum encontrá-la de pais para filhos.
Linearmente, Maria define a sua doença como “a dependência de quem tem uma dependência”.

Rachel, de 31 anos, encaixa perfeitamente neste perfil.
“Não aceitava que tinha que viver em sofrimento em nome do amor. Suportei tudo os seis anos mas acreditando que um dia seria diferente. Nunca passou pela minha cabeça tentar viver assim o resto da vida, eu só não sabia como parar”, conta.

A impotência é um traço típico da dependência, ou seja, um dependente de qualquer coisa torna-se impotente perante o seu próprio problema e sozinho não consegue parar.

Rachel conheceu-o em 2003 mas só em 2006, quando se reencontraram, aquela paixão surgiu. “Na época eu estava solteira então tomei a iniciativa e desde aquele dia não nos separámos mais”. Com um sorriso sincero nos lábios e olhos brilhantes, Rachel consegue descrever o início do relacionamento com Eduardo como uma época muito feliz. O seu “conto de fadas” pessoal, que se tornaria num assombroso pesadelo.

Nunca pensou que ele pudesse ter algum tipo de dependência pois para ela “os drogados eram aqueles que ficam perambulando sujos pelas ruas, a roubar para consumir”. Ele era diferente. Era engraçado, entendia-a e tratava-a muito bem.

Apesar de Rachel não saber, quando se conheceram Eduardo estava “limpo” há apenas alguns meses. Ao terceiro mês de namoro, começou a apresentar “comportamentos estranhos”. Mudanças de humor repentinas, desaparecimentos inexplicáveis. O primeiro pensamento de Rachel foi que ele teria outra mulher, mas não o confrontou.

Os desaparecimentos começaram a tornar-se frequentes e a angústia por não saber o motivo tal como os ciúmes da suposta outra mulher intensificava tudo.
Quando finalmente o colocou contra a parede “ele ainda estava sob efeito da droga, o coração dele estava muito acelerado, e não teve coragem de dizer”. A solução foi escrever. Com uma mensagem digitada no telemóvel, Eduardo mostrou a Rachel o que o atormentava e o que dela o afastava. Cocaína.

Ao ler, a sensação imediata foi de alívio porque, no seu entender, o problema nem era assim tão grave. Com a sua ajuda e o seu amor, ela iria conseguir salvá-lo deste tormento, afinal, “ele trabalhava e tinha uma vida aparentemente normal”. Não seria difícil tirá-lo desse mundo, e o seu amor seria a solução. Este pensamento daria início ao “ciclo doentio da co-dependência.”

“A partir desse dia eu passei a tentar agradá-lo para que ele não sentisse falta da droga”. Ao longo de seis anos “ajudei-o a arranjar empregos, a estudar, a ter uma casa, a comprar uma mota, e a realizar o sonho de ser pai”. Lutou por ele, discutiu, seguiu-o, agradou-o, fez de tudo. “Tudo!”, Frisa.
Nunca foi suficiente.

Enquanto isso, a sua vida seguia em paralelo. Vivia para mantê-lo afastado das drogas, para cuidar dos dois filhos que com ele tivera, e para trabalhar, pois não podia correr o risco de ficar desempregada. Alguém tinha de meter comida em casa.

O resultado foi uma dívida de cerca de 20.000 euros, que compromete metade do seu salário durante os próximos anos, discussões que podem ter traumatizado os filhos, “só o tempo dirá”, e dificuldade em alguma vez voltar a confiar num homem.

Entre as coisas que de casa desapareciam misteriosamente e Rachel tinha de substituir, o dinheiro que ele directamente tirava, e os pequenos projectos em que ele entrava quando estava “limpo” para depois abandonar, Rachel estava economicamente falida.
Emocionalmente, havia sempre espaço para mais uma desilusão.
“Sentia-me triste, exausta, angustiada e não sabia o motivo. Confesso que houve dias em que eu pedi a Deus que me levasse desse mundo porque eu não encontrava saída. Estava presa a ele.”

Lembra-se do dia em que saiu de casa de madrugada de carro com o filho, que tinha apenas 5 meses, “correndo” pela auto-estrada a mais de 120km/h porque achava que Eduardo estava a morrer de overdose. Em mais um dos seus desaparecimentos, “depois de tanto tentar ligar, ele atendeu dizendo que estava a sentir-se mal, e que estava com medo”. As palavras exactas dele ficaram gravadas na sua memória: «pelo amor de deus ajuda-me, eu não quero morrer...vem me buscar». “Eu entrei em desespero, anotei o endereço de onde ele estava e fui voando pra la”. Quando chegou, encontrou-o a andar de um lado para o outro completamente drogado “como um zombie. Foi uma cena triste”, diz sem disfarçar a tristeza.

“Ele nunca me agrediu fisicamente”, conta, “mas as palavras doíam na alma, e ele descobriu como me manter presa nesse ciclo através da culpa.” Aproveitava-se da sua pena por ele e da culpa que Rachel sentia infundadamente para permanecerem dependentes.

Foram 6 anos de muito sofrimento até à separação, no final do ano passado.
Confessa, no entanto, que não desistiu dele. “Nunca. Eu lutei até onde consegui. Lutei de uma maneira errada, hoje luto da maneira correcta, pensando primeiro em mim. Mas nunca desistirei da sua recuperação.” Se algum dia voltará para ele, “só o tempo dirá”.

A maneira correcta deve-a à sua procura pela recuperação.
Hoje, graças ao seu blog “dependência e codependência” e dos grupos de ajuda que frequenta, aprendeu que só se pode mudar a si mesma, que deve amar o próximo como a si mesma, e nunca mais do que, e que tem de viver um dia de cada vez.
 
Hoje sabe também que nunca antes tinha olhado para dentro de si, mas que sempre sentiu um vazio, que preenchia agradando os outros. “Gostava de me sentir bem e para isso gostava de me sentir aceite, às vezes contrariada passava por cima de sentimentos meus para que eu não fosse julgada, para agradar”.

Na descoberta de si, encontrou igualmente um optimismo e um sentido de humor que desconhecia, mas que agora parecem óbvios no seu constante sorriso alegre e brincalhão, gosto pelo desporto e pela dança.

No seu blog deixa um conselho a quem quiser ouvir, ou ler: “Se a sua concepção de amor é dar sem receber nada em troca, arranje um amigo, um filho...mas não um marido :)”

“Não tem cura, somente controle”

“É uma doença que nos vai acompanhar pelo resto das nossas vidas, não tem cura, somente controle”. Giulliana, de 28 anos, sabe bem o que é ter de conviver com a doença.

Quando toca a dependências nunca se pode falar de cura. Se um aspecto fundamental para o desenvolvimento de uma dependência é a propensão genética então ninguém  fica verdadeiramente livre da tentação. A propensão “nasceu com ela e fica para toda a vida”, explica a socióloga de Villaramadas. “No entanto, se tiver consciência disso, uma prática de vida que tenha em conta a propensão genética, e souber dar a volta à sua maneira de ser, a pessoa não precisa de continuar a usar drogas, a beber álcool, a matar-se à fome, ou a ser co-dependente”. Resumindo, tem “a tendência para, mas não a prática de”.

Uma década depois de o ter conhecido, Giulliana reconhece que para sempre terá de “controlar essa doença”, e evitar situações que lhe afectem demasiado e atinjam a sua auto-estima, para não perder o fino equilíbrio que conseguiu implantar na sua vida. Até ao dia de hoje tem conseguido. Amanhã? Logo se vê.

Com 18 anos Giulliana conheceu o “Gabriel” na noite, nas saídas dos jovens, na discoteca. Quando o viu, sentiu que estava a olhar para “um anjo de pele clara como a neve, olhos vibrantes mas tristes e perdidos”. Foi amor à primeira vista e no dia seguinte eram namorados.

Tinha tudo para ser mais um lindo amor de adolescentes, daqueles típicos de verão que acabam sempre por se tornar boas memórias, mas Gabriel tinha um segredo. Era dependente químico e fazia três anos que estava “limpo ”. Giulliana não se importou. Não tinha “noção da gravidade do problema”.
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 No primeiro ano tiveram um “namoro tranquilo e normal”, mas pouco tempo depois Gabriel recaiu. Sem saber o que era uma adição, Giulliana tentou de tudo para ajudá-lo a sair das drogas, anulando-se em favor dele.

Viviam juntos e por isso “acordava a pensar se naquele dia ele iria conseguir vencer a vontade de usar droga, e ia dormir preocupada se naquela noite ele iria desaparecer para voltar a consumir.” Estava 100% focada nele. Se o telefone tocasse entrava em pânico pois poderia ser ele a dizer que estava a voltar para casa ou uma má-notícia. O simples toque do telefone fazia-a tremer. Era esgotante. Um “sentimento de impotência” insuportável.

Parou de comer, de dormir, perdeu 10kgs. Não se permitia chorar em nenhuma situação, por pior que fosse, pois sabia que ele precisava dela mais do que ela própria. “Co-dependente tem esta mania de querer parecer forte, de achar que tem de ser o herói do mundo”, diz a sorrir. “Eu aprendi a conviver com a dor, a carregar a minha própria nuvem de chuva, a sentir sem chorar, a ter uma crise emocional sem gritar.”

Um ano e seis clínicas de reabilitação depois, Giulliana conseguiu quebrar o ciclo de sofrimento. Terminou o seu relacionamento com Gabriel e quebrou o contacto com ele. Atingiu o limite.
Pode parecer pouco quando ouvimos histórias de co-dependentes que sofrem durante vários anos, mas “foi um ano a viver aquilo todo o dia, o que equivale a dez anos de qualquer outro problema quando há tempo para respirar e pensar”, mais uma vez a brincar com a situação conta.

São os pequenos detalhes, as pequenas coisinhas que levam ao extremo, como chegar a casa um dia e ver que alguma coisa desapareceu, “e se desapareceu é porque ele vai usar a droga ou já usou”. Diariamente acontecia algo que a afectava emocionalmente.
Lembra-se da vez, logo depois da recaída, em que ele desapareceu durante quatro dias. “Foram massacrantes”. Não sabia se ele comia, se ele dormia, se bebia água, se estava vivo, mas parou de fazer essas coisas. A sua única certeza era de que ele estava a consumir.

Pensa nas loucuras que cometeu. Entre as piores estão ter dito ao Gabriel que queria tomar a droga dele, num dia em que lhe apanhou a consumir em casa. A sua sorte foi que ele caiu em si, e não a deixou experimentar. “Foi um acto de desespero. Não sei se iria em diante mas queria saber qual era a sensação que justificasse o que ele fazia comigo.” Sabe hoje que, tendo o vazio que tinha, se tivesse experimentado estaria  tão condenada quanto ele.

Outra foi ter ido pagar uma dívida de droga ao traficante em casa dele. “Isso é uma coisa que não se faz. Ponto. Mas o co-dependente perde a noção do perigo”, justifica.
Estava com Gabriel, num bairro da sua cidade conhecido pelo tráfico, “super assustada” e nunca se vai esquecer da cara do tratante, da casa e do momento. “O traficante olhou para mim e disse: ou tu és muito corajosa ou tu és muito burra!” Essas palavras marcaram-na.

Quando se separaram também teve sintomas de abstinência. Estava habituada ao ciclo de sofrimento. “Eu via que já não tinha motivos de preocupação, não tinha mais motivo para não dormir, para não comer, e isso perturbava-me. Isso prova o quanto eu estava viciada no vício dele”.

Algum tempo depois da separação Gabriel tentou reiniciar o contacto entre eles. Estava preso, talvez por posse de drogas, talvez por um crime pior, e escreveu-lhe uma carta da prisão. Uma carta que Giulliana recebeu mas nunca abriu, pois tinha seguido em frente. Tinha casado e estava grávida. Era hora de deixar o passado no passado.
A sua mãe guardou a carta e, até agora, alguns anos depois, o que ela diz é uma incógnita.

Em retrospectiva, admite ter-se tornado dependente para anular o sentimento de vazio. Vazio que não sabia que tinha mas com o qual teve de lidar.
Nove anos depois, tem poucas notícias dele. A última foi que, pelo menos há quatro meses atrás, em Dezembro, estava internado novamente numa clínica, e pediu para sair “para continuar a matar-se lentamente”.

No livro que escreveu, intitulado Valeu a pena, fala sobre a sua vivência como co-dependente e conta o seu romance com Gabriel. Não esperava que tivesse tanto sucesso pois era “só um desabafo” e uma forma de homenagear a mãe por tudo o que por ela fez, mas pensa agora em escrever um segundo, focado apenas nos factos relacionados com a doença.
Na verdade, o nome do seu ex-amado nem é “Gabriel”, mas Giulliana assim o chama pois considera-o um anjo. “Por mais que tenha doido, por mais que tenha sofrido, ele foi o meu anjo porque fez aflorar em mim o meu melhor”, diz calmamente. Não se arrepende de nada, e agora usa a sua história para ajudar outros co-dependentes. Pelo livro que escreveu, pelo segundo livro que escreverá em breve, e pelo aconselhamento que faz pela internet a vários sofredores da doença, Giulliana serve os outros e se ajuda a si própria no processo.

Viver um dia de cada vez é o segredo. “Aprendi que não preciso de ser 100% forte hoje”. Há sempre o dia de amanhã.
Para si, valeu tudo a pena.

Que o amor magoa todos sabemos, mas é preciso ter atenção quando “amar se torna sinónimo de sofrimento”, como diz Robin Norwood.
 O amor foi o principal problema destas mulheres, mas também a sua salvação. O amor-próprio é a chave para a saída da espiral da co-dependência e cada uma, ao seu passo, segue caminho em direcção à recuperação e ao equilíbrio.

“Como dizem as hospedeiras de bordo num voo, em caso de despressurização, primeiro coloque a mascara e só depois socorra as outras pessoas ao redor.”, diz Rachel a brincar.

Matéria de: Ana Ernesto


Juntas somos mais fortes meninas, parabéns as blogueiras do Brasil que participaram da matéria:

Giu: http://livrovaleuapena.blogspot.com.br/
Maria: http://maisumamariaco-dependente.blogspot.com.br/


e EU...rs..

uhuuuuu \o/.....

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